sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

I LOVE YOU ALL

1998/ Acrílico s/tela/ 60x50cm

I Love You All

Pintura após, morte de Louise, esta tela é uma retrospectiva da vida em comum e, também, uma declaração de amor. Ambos se encontram ali representados, vestidos de gala para uma pessoa que deixou de existir, de gala para celebrar a passagem, a complementaridade e a mudança. A harmonia dos opostos (branco e preto), homem e mulher, eu e tu, a vida como evocação e a morte opaca, inexorável e presente.

Autor desconhecido

É MAIS FÁCIL SER COMO TODA A GENTE, MAS…

MICHAEL BARRETT
1926-2O04

É MAIS FÁCIL SER COMO TODA A GENTE, MAS…

É mais fácil ser como toda a gente, mas é impossível abdicar dos dons que tantos, em vão, desejam. Também foi por isso que Michael Barrett tão depressa voou, como nos sonhos, como se esborrachou na rigidez da incompreensão. A diferença exalta-se, sempre que os conceitos se põem em confronto. Valores, aspirações e objectivos são, necessariamente, outros para o artista que, usualmente, não se pauta pelas normas indiscutíveis para os demais elementos da sociedade. Também não é comum defender, como mais válida, a sua forma de estar no mundo. Limitando-se a aceitar a peculiaridade do seu pensamento, nem por isso o impunha a terceiros. A margem do que muitos entendem como importante, o operador estético ocupa, sempre, o centro de um mundo pessoal.
Presumo que tenha sido através de Bonnie o contacto mais estreito com Fernando Pessoa. A semelhança do que aconteceu com milhares de outros leitores, Michael Barrett deixou-se fascinar pelo romantismo do autor de "a Mensagem", pelos seus heterónimos, pela sua capacidade de ser e estar em muitos lugares a fazer coisas diferentes. A ubiquidade do poeta traduzida pela facilidade com que, ao mudar de pele, também mudava de pensamentos, formação, aspirações e vontades, encantava o Pintor. Acresce que a língua inglesa que ambos dominavam e o facto de se rever em Alberto Caeiro e ter em Álvaro de Campos e Ricardo Reis veículos para deliciosas divagações, conquistam Mike para a pintura exaustiva dos rostos de Pessoa.
Os primeiros trabalhos mostram o modelo com as suas principais características, isto é, o típico bigode, os óculos à época, o sabido chapéu. Poucos traços e raras pinceladas certeiras e eis que Fernando Pessoa emergia nas telas de Barrett. Em todo o caso sem grandes rasgos ou sem inovações marcantes. Muitos outros autores, depois de Almada, já se haviam dedicado a retratar, de cor, o poeta. Mais gordo ou mais magro, mas sempre apelando para os elementos que, mesmo com grande inépcia, acabam por evocar-lhe o rosto carismático.

in Michael Barrett - Um Génio Marginal
do autor Edgardo Xavier
membro da AICA
edição da Galeria Sacramento

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

O PINTOR EXPRESSIONISTA

MICHAEL BARKETT
1926-2004

O PINTOR EXPRESSIONISTA


Conhecemos, nas nossas lides artísticas, há alguns anos, o artista Michael Barrett. Dialogámos, vezes sem conta, quando nos encontrávamos nas tertúlias culturais, nas exposições de arte, nos encontros de amigos. O tema que estruturava a conversa, era, naturalmente, as artes plásticas. E, foi sempre um tema inacabado, porque a arte não se esgota, antes se cria e recria em todos os momentos de criatividade dos artistas.
Por isso, a arte de Barrett identificou-o e perpetuou-o.
A exposição presente na Casa Municipal da Cultura, por iniciativa do Departamento Cultural da Autarquia, pretende e objectiva delinear um percurso e homenagear o seu autor. É uma exposição retrospectiva, logo concorre para provocar reflexão e aferir da herança artística deixada pelo pintor. Retrospectiva que implica meditação sobre a obra em presença e análise do caminho percorrido peio artista, suas implicações, suas características, qual a dimensão estética, social, técnica, cultural, pedagógica e crítica nela inserta.
Michael Barrett apropriou-se, na generalidade, da figura humana, como suporte efectivo da sua imaginação. Os seus trabalhos expressam fulgurância, movimento, cromatismo atraente, apuramento técnico de muitos anos de experiência e de estudo profundo e constante. As suas obras desenham um festival de cor e de criatividade, numa apoteose às artes plásticas, expressamente à pintura.
A sua pintura identifica um artista conhecedor da gramática pictórica, do quotidiano da vida, da sociedade em que se movimentou. Interiorizando o mundo que observava, transportou esse olhar penetrante para o seu "ego", elaborando planos, construindo projectos e divulgando mensagens plenas de beleza e racionalidade, materializadas nas composições maravilhosas que honram, hoje, a sua memória.
Em todos os momentos pintados, que são autênticos monumentos artísticos, Barrett exprime uma força incontrolável, responsabilizando valores e consolidando uma fecunda imaginação criadora. Há a acutilância da pesquisa, porque a expressividade demonstrada na sua obra, informa da alegria do acto criativo e da subtileza intelectual que se projectam na vivência da superfície pintada.
Neste entendimento, penso que a retrospectiva/homenagem a Barrett perfila uma atitude de justiça e proclama, aos quatro ventos, a assunção de um artista que se assumiu, ao longo da sua carreira, como pintor expressionista.

Coimbra, 9 de Outubro de 2004
Mário Nunes

Vereador da Cultura

SAILOR MAN

1969/ Técnica Mista sobre Cartão/ 60x42 cm

Misterious India

1983/ Óleo s/ tela/ 80x60cm

Fernando Pessoa, O Oficial

1997/ Acrílico sobre Tela/ 100x81 cm

Fernando Pessoa na Costa Nova

 1997/ Óleo s/ tela/ 81x100cm

Sem título

1993/ Óleo s/ tela/ 69x119cm

MAS, A MÚSICA ERA OUTRA...

1986/ Acrílico s/tela/ 61x50cm

Inventor de mil e um rostos de Pessoa, principalmente durante os anos 80, "gosto" que se tem prolongado até agora, transformando-o em ilusionista, violinista, ventríloquo, cartomante, viajante crucificado no tempo, arlequim, matemático, etc..., até em Pessoa de sexo ambíguo. Michael Barrett "fundiu-se com Pessoa, osmose hendonista, por vezes irónica, que se arrisca a deixar de ser epidérmica, de corpos e almas "Gémeas", para passar a ser uma "receita". E eis que Pessoa se "incorpora", com outros personagens, de Colombo passando por Camões ao Infante Dom Henrique, tímido, vago, talvez também ele necessitado de um "bagaço" esclarecedor, mas que constituem parte importante dos trabalhos do Michael Barrett. Recentemente divulgados no Independente, Público, Correio da Manhã e Visão. "O heterónirno secreto", "A mensagem", "O meu outro eu", "O vínculo", "Fernando, o definitivo encontro", "O outro lado do Fernando", "Os jogadores de cartas", "O eco em mim", "Melancolia", "l love you", "Anti-inflação", "Fernando ao espelho", " Fernando Colombo", "A imagem possível", " Fernando, o Infante", " No jardim das oliveiras", "Pessoa janota", "Os campeões", "O circo", "Pessoa cubista", "Ventríloquo", "O heterónimo do Fernando", etc. ... são nomes de alguns "pessoanos" de Michael Barrett, "interpretações" ímpares do Poeta.

António Augusto Menano
Poeta, Escritor e Pint

MICHAEL BARRETT

MICHAEL BARRETT
1926-2004

MAS, AFINAL, QUEM FOI MICHAEL BARRETT, O PINTOR?


"Mas, afinal, quem foi Michael Barrett, o Pintor? Não resisto á tentação de, para responder, usar as suas próprias palavras: "...Quem sou eu, senão um ser atormentado, como todos os homens, que não quer senão pintar, que só não é medíocre pintando? Quem sou eu, senão alguém que sonha com dias cada vez melhores, para ele, para a sua família e amigos e para a sua pintura, a sua maneira de falar, de comunicar e de estar na vida? No fundo, quem sou eu?”
Reapreciando, este auto-retrato, fica claro que Barrett se percebe com um artista plástico fora da mediocridade. Apenas no campo da pintura se exclui do resto dos humanos que ele acredita ter e viver angústias próximas. Provavelmente por não achar importante, não referiu o facto de ser ele um homem apenas comprometido com o seu trabalho. A ele sujeitou parentes e amigos mesmo quando isso foi difícil de fazer. Como atrás se escreve, nada do que fosse encomenda, sugestão ou projecto alheio, tinha resposta que não surpreendesse pela diferença, qualidade e carácter pictórico. Na sua arte, era absolutamente livre e não abdicava dessa maravilhosa prerrogativa.
Muitas obras, algumas de excepção, foram recusadas pelos clientes, incapazes de as sentir ao primeiro olhar. Não davam com as cortinas ou integravam-se mal junto aos cloisonné da sala. E Barrett saía deprimido, de bolso e alma vazios, para sofrer, a sós, as carências, a incomunicabilidade e os inúmeros ciclos viciosos a que a defesa intransigente da sua liberdade obrigava. Entendiam-no como irreverente e refractário a qualquer tipo de método, prazo ou horário. Funcionava pelos seus ritmos interiores ou através de aconselhamento de poucos amigos. Na realidade, nunca foi possível amarrá-lo a ideias ou programas burocráticos e, por essa simples razão, não trabalhou com as Galerias que o poderiam ter colocado no primeiro plano da arte contemporânea nacional."
Edgardo Xavier in "Michael Barrett, Um Génio Marginal"


O Pintor nasceu em Paris a 13 de Fevereiro de 1926 e faleceu a 6 de Maio de 2004. Viveu e pintou, predominantemente, em Cascais, Figueira da Foz e Aveiro. Repousa no Cemitério da Guia em Cascais.

INDIANAS

1992/ Aguarela/ 37x56cm

THE PRIEST

1995/ Acrílico s/tela/ 100x81cm

A ILHA DE LESBOS

1984/ Aguarela s/cartão/ 30x42cm

ARTE XÁVEGA

1988/ Acrílico s/papel/ 35x47cm

BARCOS NA RIA

1985/ Aguarela s/papel/ 44x60cm

Michael Barrett

Michael Barrett (1926-2004), nasceu em Paris, contudo foi em Lisboa que se fixou, tendo aí descoberto o seu amor pela arte. Cascais, Figueira da Foz e Aveiro foram porventura os seus temas prediletos, a par com Fernando Pessoa. As influências impressionistas e expressionistas, a par da sua admiração por Matisse, definiram-lhe um estilo peculiar, revelado na excelência da sua obra. O crítico de arte Edgardo Xavier apelidou-o de "Génio Marginal" considerando que na sua vasta obra há indubitavelmente peças notáveis que se impõem pela qualidade geral, pela cor, pela surpresa que suscitam ou por outras virtudes que são fruto do seu talento.

Pintura